Lembrei-me recentemente com carinho do doce feito em casa, pálido e discreto, ignorado ao lado dos pavês e bolos recheados das estações de sobremesas. Branquinho e sem graça, o arroz-doce sempre perdeu para as suntuosas sobremesas da moda e já foi até menos popular que gelatina de um sabor só. Sei que todo mundo traz na família uma receitinha esquecida e que por ele nutre um amor nostálgico a ocupar boas memórias da cozinha da mãe ou da avó.

Mas a grande verdade é que entre um arroz-doce e um red velvet, por mais que você seja louco pelo doce da avó, a tendência é nos esbaldarmos no bolo rubro e deixarmos de lado o branquinho sem graça.

Isso porque o arroz-doce é uma receita que, na prática, “é facinho de fazer e se faz em casa rapidinho”, ao contrário do tiramissu glamouroso da patisserie famosa. E assim, sempre deixamos para depois a receitinha de arroz-doce, trocando-o por macarons coloridos, cupcakes decorados e pavlovas crocantes.

“Tadico”, penso sempre… Eu com minha mania de ter pena de pratos menos glamourosos e biscoitos quebrados nos pacotes (vejam só se isso é lá exemplo de sanidade na cozinha), tento dar a chance e importância que eles merecem. Amo de paixão a receita tradicional, o arroz comum cozido no leite com um bom punhado de açúcar e canela, mas tenho pelo menos 8 variações da receita para que ela se sobressaia na mesa e desponte como favorita.

Na minha mesa, o arroz-doce é sempre bem-vindo e tem lugar de destaque no hall dos bons doces caseiros. Adoro uma boa receita tradicional revisitada com ingredientes diferentes. Isso mantém o prato na mesa por gerações e cria-se uma linha do tempo de evolução da receita, um equilíbrio entre o tradicional e o moderno (sem gourmetizar em excesso. Apenas evoluir o conceito se possível for). Tenho em meu livro de receitas particular inclusive uma receita de arroz-doce frito (igual ao macarrão frito) que não faz lá aquele bem ao coração físico, mas que arrepia a alma de todo fã de fritura doce mergulhada do azeite de baunilha.

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Hoje, por exemplo, fiz em casa a versão de arroz-doce da chef Michele Maia, da Simplesmente Gourmet Epicerie (Piracicaba/SP), que elevou o branquinho chocho a outro patamar, mas sem perder a sua essência. A versão delícia da chef leva amêndoas laminadas, um pouco de chocolate belga, pêras desidratadas, canela, arroz arbóreo para risoto e açúcar orgânico. Tudo em um kitzinho especial com a medida certa, para render até quatro porções, com os ingredientes secos separadinhos. (Aqui vale um acréscimo: a embalagem diz que rende quatro porções, mas rendeu mais! Uma feliz surpresa na minha cozinha!).

Basta acrescentar a medida certa de leite, levar ao fogo, seguir o passo-a-passo facinho e voilá: um arroz-doce digno de reis! O perfeito na receita sob medida da Simplesmente Gourmet é que você evita cozinhar arroz-doce para uma batalhão, já que errar na medida desse doce é uma constante entre os apreciadores. (Vai dizer que estou mentindo?)

Nessa versão acabei acrescentando apenas um pouco de raspas de limão para não perder o costume de dar um toque pessoal à receita. Cozinhei, fotografei e saí satisfeita da cozinha.

O que me fascina nessa sobremesa tão simples é que ela jamais perde sua essência singela. Não importa o quanto de tâmaras frescas ou ganache de rosas brancas se acrescente a ele. Pode-se agregar os ingredientes mais sofisticados ao seu redor e o arroz-doce continua com a mesma alma rústica e pura da receita original.

Gosto de como ele me lembra que as coisas boas da vida não precisam de muito enfeite. Que basta apenas um tico de açúcar e canela para se sentir abraçado pela vida. Mas gosto mais ainda que, com toda sua simplicidade, aceite o toque sofisticado e glamouroso de um ingrediente diferente que o torne ainda melhor.

Eita docinho flexível e aberto a novas experiências. A cozinha me ensina todos os dias. É meu jeito de ver a vida sob uma perspectiva simples e ao mesmo tempo enriquecedora. Um nova receita de arroz-doce, por exemplo, sempre me prova que um tiquinho de mudança e um pouquinho de sofisticação não fazem mal a ninguém. Uma evolução de conceito não muda sua essência: ao contrário, só a enaltece e a mantém viva e vibrante, por gerações. Para ser eterno, mude. Só um pouquinho.

Também é fã e tem uma versão delícia de arroz-doce do cook book da família? Divide com a gente! Eu vou adorar testar em casa!