Receitas prontas são memórias temperadas

Foto Adriano Aquino Fotografia

Há poesia e história nas cozinhas. Em todas elas. Existe uma alma inquieta, uma presença dançante, um ser que talvez viva na chama dos fogões, que instiga e inspira todo aquele que em seu coração traz um cintilar de apreço pelas panelas.

Meu pai era uma dessas pessoas. Não era extamente um cozinheiro, mas sua familiaridade com as panelas e com o dever de alimentar a prole, comovia-me e ao mesmo tempo me intrigava ao vê-lo lidar com tanto jeito com aquela infinidade de ingredientes e utensílios de cozinha. Talvez tenha sido a necessidade da vida, mas tinha hábitos culinários peculiares. Não exóticos. Peculiares e singelos. Botava mãos cheias de cominho, sem medida, numa panela de feijão cozido, mas fatiava delicadamente batatinhas e mandiocas como que a preparar joias a serem levadas ao fogo. Levava os quiabos fatiados simetricamente ao sol, dispostos em uma peneira, para “secar a baba”, dizia, e “não amargar na quentura”.

Misturava tudo que é tipo de tempero em um só caldeirão e ignorava qualquer tipo de textura dos ingredientes quando se tratava de cozidos. O caldo de seu feijão era sempre fino e carregado de um tempero pronto que até hoje não sei o nome. Seu intitulado Arroz Agrícola levava uma espécie de arroz polido, com batatinhas em cubos, tomates, cebolas e repolho fatiados, com muito – muito – tempero, entre eles cominho, açafrão-da-terra, cebolinhas, coentro…

Odiava cada um daqueles aromas. Sim, eu odiava cada um daqueles aromas. Ficava brava quando do quarto sentia o calor das especiarias a invadir o ar e me fazer sentir o gosto daqueles ingredientes só pelo cheiro. Como qualquer criança daquela época, não queria legumes cozidos, ainda mais com temperos “esquisitos”.

Quando adolescente assumi o controle da cozinha de casa, tentava fazer o oposto do que meu pai fazia em suas receitas. Creio que minhas irmãs e irmãos também o fizeram em suas cozinhas. Arroz branquinho, mais frituras e assados do que os cozidos pálidos de meu pai. Mas me vi, sem perceber, a provar e pesquisar aqueles temperos que tanto desprezei quando era ele o chef daquele nosso bistrô particular. Me vi a procurar as panelas que ele usava, os caldeirões, as peneiras e a tentar copiar a receita do quiabo que tanto viu minhas caras feias à mesa quando pequena.

Foto Adriano Aquino.

Foto Adriano Aquino.

Mas um prato em especial me tirava da cama bem cedo. Acordava com o aroma agressivo a invadir o quarto e com o barulho da gordura estalando na cozinha. Um sanduíche que ele fazia com pão amanhecido, frito em banha e recheado de linguiça picadinha com tomates. Era por esse sanduíche, gorduroso, picante e feito das sobras de uma velha salada, que eu esperava certos dias na semana. De todo o tempo que meu pai passou na cozinha, foi quase no fim de sua experiência gastronômica que ele criou o prato para o qual eu lhe daria trois étoiles. Há sete anos um AVC o afastou das frigideiras e eu por todo esse tempo senti falta desse sanduíche tão impossível de reproduzir.

Quando ele partiu, aos 82 anos, num sábado ensolarado deste mês de novembro, uma única imagem me veio à mente como que a tentar congelar um só momento de sua história para não escapar jamais a lembrança. Sua presença na cozinha da velha casa em Avaré – ainda da família – em frente ao fogão vermelho, a porta da cozinha aberta, com o sol ainda tímido e o barulho da frigideira queimando a esperar os pãezinhos amanhecidos.

Não só a imagem fez-se viva e forte como por um segundo senti o aroma do tempero quente que exalava da frigideira naquelas manhãs.

Receitas prontas são memórias temperadas. Não precisam ser feitas de trufas para nos serem caras e raras. Nos afagam quando a saudade aperta e por um segundo podem trazer de volta aquele momento que te fez tão satisfeito.

É por essas e outras que na cozinha estão minhas melhores histórias e memórias. Depois de tantos anos morando longe de meu pai, foram as frigideiras e os temperos que gravaram em nossa história – tão particular – o que meu coração não precisaria esquecer.