A nossa relação com o alimento é o tema discutido neste artigo escrito pela chef Tatiane Santos. Você tem fome de quê? Sensações, desejos, nostalgia nos sabores?

*Por Tatiane Santos

 Toda ciência tem um objeto, algo pelo qual, com o qual e para o qual trabalha. Graças aos bons ventos, a culinária ainda não é concebida como ciência, ou pelo menos, bem mais mencionada como uma arte. Então não falaremos de objeto, mas de um tema pelo qual, com o qual e para o qual ela trabalha. Falaremos da alimentação.

Considero, no entanto, importante, antes de nos atermos especificamente ao nosso tema, tecer algumas considerações sobre a questão científica. Entendam claramente o primeiro parágrafo deste texto como uma crítica, pois é exatamente o que ele é. É uma crítica a ciência de forma geral sim, mas não com a intenção de desmerecê-la. É bem mais um alerta, um pequeno bilhete para que lembremos que tão importante quanto a divisão em partes, em elementos para estudo e análise, é a visão da totalidade e a compreensão, o desvelamento dos fios que a teceram. Devemos enxergar o sentido dessa trama para que possamos apreender a magnitude, o sentido da alimentação para nós.

Então, qual é esse sentido? O que buscamos quando comemos, quando nos alimentamos? São sinônimos, comer e alimentar-se?

A vida, desde seu início necessita de nutrientes para seu desenvolvimento e manutenção. Mesmo as pequenas células que começam a se agrupar no momento da concepção necessitam de alimento. Durante o desenvolvimento uterino o bebê necessita de alimento e será assim até o fim da vida. A alimentação é então algo inerente à vida e à acompanha desde suas mais primárias manifestações. E isto é assim para todos os seres vivos, plantas ou animais, desde o início da existência.

Pois bem. Voltando um pouco no tempo, ao período Paleolítico Inferior, temos um ser entre o homem e um animal. É evidente que da forma que fosse, a alimentação já estava ali presente. Mas será que haviam quantos sentidos para ela naquele momento? Se não existia o domínio do fogo e o homem caçava e se alimentava como um animal, supõe-se que a ingestão de alimento era apenas uma necessidade biológica. Mas eis que ocorreu a grande mudança, o primeiro passo para uma nova forma de existir enquanto ser. O homem dominou o fogo! Como e porque isto ocorreu não pode ser explicado. Temos muitas hipóteses e cada teoria que aborda o tema nos conduzirá a um motivo diferente. Pode ser a busca de poder (se é que essa noção é inerente à espécie e assim foi possível) e pode ser uma necessidade interna, que fez o homem abrir mão do poder, do desejo de dominar o fogo apagando-o com sua urina e assim, como supôs o Dr. Freud, deu o primeiro passo para o desenvolvimento da civilização. Pode ser ainda pela simples experiência prazerosa que era comer os alimentos cozidos ao acaso pelos focos de incêndio. Seja como for, o fato é que este foi sim um marco, pois deu início a construção da vida em grupos, depois à relações nesses grupos e a consequente estrutura e hierarquia social.

E a que isso nos interessa agora? Bem, é que simplesmente da mesma forma que essas primeiras relações entre as pessoas se construíram, se teceu a relação com o alimento, diferente em cada cultura e que ultrapassou em muito a necessidade biológica. Comer e alimentar-se então, não são mais sinônimos. Nosso dicionário nos esclarece. Definimos comer como “o ato de mastigar e engolir um alimento para nutrirmo-nos.” Alimentar-se também é a introdução de nutrientes no organismo, mas também serve para prover a manutenção do organismo. Agora chegamos… é só de alimento que o ser humano precisa para se manter? Sabemos que não. A vida, aquela que é inerente à alimentação e vice versa, precisa, para nós, seres sociais, de prazer, de afeto, de companhia, de qualidade, de interação, de surpresa e de saciedade. Assim, ao sentar em um restaurante para comer buscamos muitas coisas. Por vezes nossa prioridade é saciar a fome sim. Mas nem nesses casos, quando precisamos mesmo comer porque realmente estamos com fome, podemos dizer que nos sentamos ali para apenas nos nutrir. Porque isso poderia ser feito em qualquer lugar. Mesmo em casa, que seja, são diversos os motivos e desejos que envolvem o ato de alimentar-se. Isto simplesmente porque a fome de nutrientes, aquela que é um apelo do organismo a alguma comida seja ela qual for, poucos, mas poucos mesmo de nós sentiram. Não vamos nos dispersar então em questões sociais de miséria e nem discutir quantos passaram ou não fome na vida. Nossa questão é: quando comemos, buscamos diversas memórias, sentimentos e sensações, que nos são dadas não só pelo alimento, mas por todo o ambiente que nos cerca no momento da refeição, por quem nos acompanha ou não, por quem nos serve e até pelo clima, ruídos e aromas presentes naquele momento.

A alimentação é, assim, um parafuso que une diversas penas de um leque. Comer é diferente de alimentar-se e o ser humano busca muitas coisas quando se alimenta, ou melhor, ao ingerir, alimenta-se de muitas coisas.

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